Prefácio do livro O Pacto, de George dos Santos Pacheco

 
É um autor em ebulição. Quem leu Uma aventura perigosa (Buriti, 2015), agora, com a oportunidade de ler O pacto (2017), perceberá o salto que George dos Santos Pacheco deu em sua empreitada infatigável pelo terreno da ficção, no caso, do romance, forma literária em que a imaginação de um escritor é colocada à prova, e, nesse desafio, o autor levou a melhor.

Se no romance anterior a estrutura simples não comprometia a narrativa, e mesmo ali a imaginação impunha-se já panorâmica, neste, o leitor de George irá se deparar com um autor esforçando-se para encontrar a melhor maneira de contar sua história, e ele, claro, a encontra ao dar voz não apenas ao narrador personagem tradicional, mas a dois personagens, que, cada um a seu tempo, conduzirão a narrativa, como orienta a cartilha da pós-modernidade, e é aí, justamente, que George acerta.

Um pouco de enredo? Um anti-herói depara-se diante de ninguém menos do que o próprio Capeta. É que Théo, personagem principal, não é flor que se cheire e, num acórdão com o Beiçudo, regressa da morte desmemoriado e, então, traz o leitor para dentro de sua vida. Como a memória dele está em pane, as coisas vão acontecendo sem que ele e o leitor possam entender bem quem é esse personagem-narrador em busca de saber exatamente quem é. Como um quebra-cabeça, as peças só vão encaixar-se lá pelo fim da segunda parte do romance, quando entra, então, Bidu, o segundo personagem-narrador de O pacto.

As cenas de sexo estão de volta, mas não tão explícitas como no romance anterior. Ménage à trois, chifres, estupros, pedofilia têm seu lugar em O pacto, nem sempre de forma gratuita, mas percorrendo um dos caminhos da literatura contemporânea em que o sexo é menos sugerido e mais levado ao primeiro plano narrativo, sem pudor, sem censura, escancarando-o. Nenhum demérito, mas o contrário: banir o sexo da literatura seria insistir em um comportamento vitoriano que não diz muito a um século XXI em que o sexo é esmiuçado com um único clique; a internet está aí, e não há por que torcer o nariz para o sexo que, até então, na literatura, vinha escondido lá em meio as lianas narrativas em que muitos leitores nem sequer o percebiam. Por que não lembrar da cena de sexo oral de Basílio em Luísa ou das travessuras, digamos assim, de Bovary e de Belle de Jour? 

Mas o autor não precisa de sexo para fazer o leitor atravessar seu livro de um lado a outro. O enredo encarregou-se disso. Desde Aristóteles, as peripécias são reconhecidas por suas surpresas, e a coisa não poderia ser diferente aqui: do contato de Théo com – com Houaiss, tome nota – Azucrim, Canheta, Coisa à toa, Mofento, Pé-cascudo, Pé de cabra, Pé de gancho, Pé de pato, Rabudo, Romãozinho, Sapucaio, sim, o Mofino tinhoso, até as máscaras que vão caindo, uma a uma, a narrativa segura-se, deslizando suave como um carrinho de rolimã ladeira abaixo. E nós, apoiando-nos confortáveis, anexados ao brinquedo, de capacete e tudo, vamos descendo a ladeira com George, para depois subir e novamente descer, e subir, num ritmo sempre capaz de fazer os leitores voltarem ao ponto onde pararam a fim de descobrir cada vez mais o que fez Théo antes de perder a memória.

Palmas ao autor, que com O pacto demonstra claramente o que é o passo adiante dado na carreira de um escritor que, sempre insatisfeito, buscará a forma mais adequada para expressar o que pretende contar debaixo do véu artístico da ficção, algo que só o romance é capaz de oferecer a um artista – como o George, o romancista em ebulição por trás deste livro que você, leitor, tem em mãos. Boa leitura!
Renato Alessandro dos Santos

Serviço:

O Pacto, de George dos Santos Pacheco
Clube de Autores
301 páginas
R$ 36,32

Lançamento: 04 de abril, às 18 horas

Onde: Cafeteria Grão Café. Rua Monte Líbano, 34, Centro – Nova Friburgo – RJ
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O Pacto: terceiro romance de George dos Santos Pacheco sai pelo Clube de Autores


Confesso que estava ansioso pelo anúncio. Finalmente, O Pacto (meu terceiro romance) será publicado. Repetindo a experiência de Uma Aventura Perigosa (2015), Sete – Contos Capitais (2016), Tarde demais para Suzanne (2016) e As Aventuras de Frog, o ratinho (2016), o livro sairá pelo Clube de Autores, a maior plataforma de autopublicação da América Latina que permite aos autores independentes publicarem suas obras sem tiragem mínima.

O Pacto se passa inteiramente em Nova Friburgo, e não será difícil para o leitor se reconhecer em bairros ou cartões postais da cidade. Além disso, é recheado de referências à mitologia, música, e filmes, entre outros, tem um ritmo empolgante e flui naturalmente. O livro retrata aspectos como a passagem do tempo e conflitos entre a memória e realidade”, explica o autor. “É um romance sobre o gênero humano, sobre a sociedade contemporânea. Quantas vezes vamos ao inferno ao dia? Quantas vezes procuramos culpados pelas nossas próprias falhas e omissões?

O livro tem previsão de lançamento para abril de 2017 e brevemente estará em pré-venda no site do Clube de Autores.

Sinopse

Théo Lücke morre. Ele não se lembra de quem é, como isso aconteceu e muito menos por que tem um 38 guardado no bolso do paletó. Angustiado pela condenação eternidade adentro, Théo aceita fazer um pacto para ter sua vida de volta: regressar ao mundo dos vivos e trazer outra pessoa ao Tinhoso para pagar seus pecados. De volta ao plano terreno, e enquanto procura por quem vai pagar o pato em seu lugar, tem a oportunidade de descobrir a verdade sobre si mesmo e – quem sabe? – conseguir salvar sua pele, literalmente.

Em seu terceiro romance, George dos Santos Pacheco realiza uma viagem fantástica pela condição humana, com seus vícios e virtudes, proporcionando aos leitores, além da fruição e deleite, uma bela e oportuna reflexão sobre as relações sociais em tempos de crise de valores. O Pacto é um romance que dialoga com a sociedade contemporânea atual, tão carente de tipos sociais exemplares, pessoas em quem ninguém hoje parece acreditar mais.

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A prisão não são as grades


Não é apenas o sistema prisional, a economia, a política brasileira que está em crise. Passamos por uma crise de valores. Voltamos à Idade Média? Cadeia não é calabouço pro indivíduo sofrer até morrer. Se você pensa assim, se você deseja que as pessoas morram, independente do que ela fez, tem alguma coisa errada. 

A solução, cara pálida, não é prender mais gente, não é matar mais "bandido", não é construir mais presídios. A solução é evitar que as pessoas se marginalizem. E isso envolve um Estado mais eficiente.

Daí muitos vão dizer “Ah, Pacheco, mas você está dizendo isso porque não sofreu com a criminalidade, ninguém da sua família foi morto por um bandido, nunca foi assaltado, etc, etc...”. Graças a Deus. E é exatamente por isso que eu posso pensar com imparcialidade.

A cultura do “calabouço” é estimulada justamente para retirar a responsabilidade do Estado nesse negócio todo (como tantas outras ideologias que nos são empurradas goela abaixo todos os dias, disfarçadas em boas intenções e belos discursos, sem que percebamos). E a Segurança Pública, prevista na Constituição? E a Educação e a Saúde públicas?

“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”, já dizia Mahatma Gandhi. Pergunto-me como os presidiários podem ter acesso a celulares, TV’s, armas e a tantos outros recursos. Quem permitiu isso? Como o cidadão, aqui fora, vive escondido em suas casas, carros, atrás de muros e grades (que nos protegem de quase tudo)? Quem permitiu isso?

É um enorme paradoxo, não acham?

Tudo é muito mais complexo, caro leitor. E precisamos estimular uma consciência crítica para perceber isso tudo e mudar um pensamento equivocado. Leva tempo, mas é possível. Se pensamos errado, todos temos culpa: o Estado, as famílias, a mídia, eu e você. Mas sempre é hora de mudar. Mude o que você pode.

George dos Santos Pacheco
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O próximo candidato


Ajeitei-me na cadeira e organizei os papéis sobre a mesa. Com o mouse, percorri a tela do computador, escolhi a pasta adequada e cliquei na ficha editável, para digitar os dados fornecidos. Eram dados simples, mas suficientes para fazer a seleção necessária. Pausei a música no aplicativo de mídia e depois, retirando o telefone do gancho, fiz contato com a secretária.

Pode pedir para que o candidato entre, por favor.

Ok. respondeu-me secamente.

Logo em seguida o homem entrou, pedindo licença e fechando a porta logo atrás de si. Usava um terno simples, mas bem cortado e seus cabelos estavam penteados com gel. Sorria um tanto sem graça, mas o sorriso parecia forçado para parecer tímido.

Sente-se, por favor. – disse eu, indicando a cadeira à minha frente com a mão.

Oh, muito obrigado, meu amigo! Como vai? Tudo bem? cumprimentou-me apertando minha mão com firmeza antes de sentar.

Err… eu… eu vou bem. Obrigado. – respondi ao cumprimento, achando seu tom um tanto exagerado para a ocasião. Então… qual o seu nome, por favor?

Luizinho, Luizinho da Pipoca.

Como, senhor?

Luizinho da Pipoca. Algum problema?

Eu preciso do seu nome real, senhor.

Ah, pode colocar Luizinho da Pipoca. É como todos me conhecem. Aliás, sou muito conhecido.

Ahn, ok. Qual sua ocupação?

– Err.. eu vendo pipoca. Entendeu? Luizinho da Pipoca. – respondeu-me com um olhar debochado, como se admirasse eu não ter entendido a relação de seu “pseudônimo” e o que ele fazia para viver. – A propósito, a melhor pipoca da cidade! Sabe… o segredo é a temperatura do óleo. Elas estouram todinhas, o cheiro vai longe. Mas quanto a isso, trata-se de um segredo de família e infelizmente não posso lhe contar…

– Entendo… E o senhor tem alguma habilitação para o cargo pretendido?

– Habilitação? Como habilitação?

– Algum curso, experiência na área?

– Desculpe, mas o anúncio não falava nada sobre habilitação. Inclusive, deixava bem claro que todo mundo podia concorrer. Apesar disso, já fui do grêmio estudantil e frequentei algumas reuniões da Associação de Moradores.

– Mas você entende alguma coisa de Administração Pública, Direito Administrativo?

– Não, mas… isso aí eu aprendo se conseguir a vaga. Acredito que vai ter gente mais experiente do que eu lá, e não vão se incomodar em me ensinar o que sabem.

– Aposto que não…

– É só isso?

– Não, ainda tenho algumas perguntas. O que o senhor pretende fazer se for eleito para o cargo?

– Ah, eu tenho muitos planos. Quero realizar o sonho de uma viagem pelas praias do Nordeste, devo ajudar uma tia minha que precisa de tratamento dentário, talvez compre um terreno no meu bairro… – respondeu-me olhando para o teto, como se imaginasse a realização de seus sonhos. –Há um cantão lá que os terrenos são baratinhos, mas a rua é de terra batida. Contudo, se eu estiver dentro consigo asfalto para lá em dois tempos. – completou, fazendo uma concha com a mão, como se pedisse segredo.

– Desculpe, me refiro ao o que você vai fazer na função.

– Oh, me desculpe! Então… eu vou cumprir minhas obrigações da melhor maneira possível, respeitar meus superiores e colegas de trabalho, ser organizado e honesto. Vou trabalhar muito, não faltarei um dia de trabalho. Meu nome é trabalho, senhor!

– Está ótimo! Acho que é só. – disse secamente, com os olhos grudados no computador, enquanto concluía minhas anotações.
 
– Então acabou?

– Sim, o senhor está dispensado.

– Que bom! O senhor acha que eu tenho alguma chance de conseguir o cargo?
– Olha… como não serei apenas eu que vou te avaliar (e você é muito conhecido), acho que você tem grandes chances.

– Ahn… obrigado. Bom dia!

– Desculpe, só mais uma coisa, é uma pergunta informal. Por que o senhor quer o cargo?

– Ah, doutor… eu sei que um trabalho temporário, mas o salário é muito bom, além de todas essas regalias e adicionais. E eu ainda posso me candidatar novamente ao final do período. Dá pra mudar de vida!

– Entendo. Bem, é só isso. Boa sorte!

– Obrigado!

E agora? A perspectiva é muito ruim. O que eu ouvi falar desses candidatos não está no gibi! Cada um pior que o outro. Eles não usam sequer o próprio nome! Não tem habilitação para o cargo, nem mesmo sabem o que se faz na função. Estão mais interessados na remuneração do que com o serviço propriamente dito. Fatalmente, terei de escolher o menos pior. Minha opinião, contudo, não tem muita importância; como esse cara aí mesmo disse, ele é muito conhecido, e pode muito bem ficar com o cargo, mesmo não sendo merecedor (nem habilitado) para isso. Enfim, talvez chegue alguém à altura da responsabilidade da função. Quem sabe?

Ainda divagando, absorto em pensamentos sobre o futuro e tamborilando os dedos na mesa, retirei novamente o telefone do gancho.

Pode pedir para que o próximo candidato entre, por favor?


George dos Santos Pacheco

George dos Santos Pacheco (Nova Friburgo, 7 de outubro de 1981) é um escritor friburguense. Um dos autores da Coletânea “Assassinos S/A Vol. II”, e do romance “O fantasma do Mare Dei”, ambos publicados pela Editora Multifoco em 2010. Participou da antologia “Buriti 100”, pela Editora Buriti preparou para comemorar o lançamento do seu 100º livro. É também autor do romance "Uma Aventura Perigosa", do livro de contos "Sete - Contos Capitais", do infantil "As aventuras de Frog, o ratinho", e do livro de contos Tarde demais para Suzanne. Tem textos publicados em diversos blogs e sites especializados, é colunista da Revista Êxito Rio, e mantém desde 2009 o blog Revista Pacheco, onde publica seus próprios textos e de colaboradores. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, no tema lírico-filosófico; foi premiado em 1º lugar, na categoria crônica, e em 2º lugar, na categoria conto, no 1º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu Affonso Romano de Sant'anna; e em 3° lugar, na categoria prosa, no I Concurso de Prosa e Poesia de Bom Jardim - RJ, com o conto "O Dono do Bar", durante a III Festa Literária da Serra (FLITS). Em 2014, teve seu conto "A Dama da Noite" adaptado para um curta metragem homônimo, através do coletivo audiovisual "Sétima Literal", de Nova Friburgo, que serviu de cartão de visitas da cidade para a implantação de um Polo de Audiovisual na região.
*Publicado no portal de notícias Nova Friburgo em Foco em 26/09/2016.
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Pássaro Ferido


Basta estar vivo, é o que dizem. De forma bem humorada, ouvi numa palestra que “a vida é fatal, e transmitida sexualmente”. E é verdade mesmo. Por mais que vivamos sem nos dar conta disso – ou tapando os olhos com os dedos parcialmente abertos, a única certeza é de que não sairemos vivos daqui. Eventos como o acidente com o avião que transportava a equipe do time de futebol da Chapecoense talvez aconteçam para nos lembrar disso. Não somos deuses. Reza a lenda de que, na Roma antiga, quando um comandante ganhava uma batalha importante, percorria a cidade no chamado “triunfo romano” – parecido quando um atleta ganha uma competição importante e desfila no carro do Corpo de Bombeiros. Junto dele, um escravo sussurrava no ouvido do vitorioso: “Memento mori” (Lembra-te de que és mortal).
Talvez seja um modo fatalista de ver as coisas, mas não consigo enxergar de outra forma. Tudo tem um começo e um fim. O que torna tudo diferente é o intervalo entre as duas pontas. John Green em seu maravilhoso “A Culpa é das Estrelas” disse que “alguns infinitos são maiores do que outros” e isso tudo pode soar insensível para alguns, mas é assim que a vida é. Enquanto escrevo isso, meus filhos assistem desenhos na TV e muitos filhos esperavam seus pais, que se despediram empolgados para um jogo importante. “Papai vai lá rapidinho e volta tá?”. Eles não voltaram. E por mais que as pesquisas apontem para cerca de 160 mortes no trânsito, todos os dias – quase o dobro dos que morreram no acidente da Chapecoense – isso me entristece.
Para mim não importa, neste momento, a estatística das mortes no trânsito.
Foi triste, foi chocante e continua a me chocar toda vez que me lembro disso. Tanta gente jovem que se foi de uma hora para outra – e por conta de negligência. Mortes em massa me incomodam tanto quanto a de pessoas próximas, porque penso nos que ficam. Nos filhos, nos pais, nas esposas e maridos. E também porque isso me lembra que também sou mortal.
Todos os dias, ao sair para trabalhar, me despeço de minha mulher e meus filhos pensando em meu retorno. “Papai vai lá rapidinho e volta tá?”. E se eu não voltar? Aliás, e quando eu não voltar? Porque isso um dia fatalmente vai acontecer e acho que eu não estou preparado para isso, como também acredito que todos aqueles que embarcaram naquele pássaro de ferro não estavam.
O que fazer para diminuir essa sensação angustiante?
Não sei, caro leitor. Talvez seja uma tarefa diária, um exercício de tentar ser melhor a cada dia e procurar ver as coisas como se fosse a primeira vez. Em um texto magnífico de Otto Lara Resende ele fala sobre isso: “Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos”. Mesmo não sabendo o que fazer, recomendo ver as coisas como se fosse a primeira vez – e não a última, como disse Lara Resende. Beije sua mulher como se fosse a primeira vez, brinque e abrace seus filhos como se fosse a primeira vez. Aperte a mão de seus amigos, como se fosse a primeira vez. Porque um dia nosso combustível vai acabar em pleno vôo e não vai ter nenhum locutor de futebol narrando o velório ao vivo na TV.
Lembre-se que areia já está descendo na ampulheta. Lembre-se de que também é mortal.
George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

George dos Santos Pacheco (Nova Friburgo, 7 de outubro de 1981) é um escritor friburguense. Um dos autores da Coletânea “Assassinos S/A Vol. II”, e do romance “O fantasma do Mare Dei”, ambos publicados pela Editora Multifoco em 2010. Participou da antologia “Buriti 100”, pela Editora Buriti preparou para comemorar o lançamento do seu 100º livro. É também autor do romance "Uma Aventura Perigosa", do livro de contos "Sete - Contos Capitais", do infantil "As aventuras de Frog, o ratinho", e do livro de contos Tarde demais para Suzanne. Tem textos publicados em diversos blogs e sites especializados, é colunista da Revista Êxito Rio, e mantém desde 2009 o blog Revista Pacheco, onde publica seus próprios textos e de colaboradores. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, no tema lírico-filosófico; foi premiado em 1º lugar, na categoria crônica, e em 2º lugar, na categoria conto, no 1º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu Affonso Romano de Sant'anna; e em 3° lugar, na categoria prosa, no I Concurso de Prosa e Poesia de Bom Jardim - RJ, com o conto "O Dono do Bar", durante a III Festa Literária da Serra (FLITS). Em 2014, teve seu conto "A Dama da Noite" adaptado para um curta metragem homônimo, através do coletivo audiovisual "Sétima Literal", de Nova Friburgo, que serviu de cartão de visitas da cidade para a implantação de um Polo de Audiovisual na região.
*Publicado na Revista Êxito Rio em 16/12/2016.
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O Eu-outro




Naquele dia, um homem de meia idade estava sozinho em sua sala. Anoitecia, e ele podia enxergar-se na vidraça. Fitava seu reflexo, os braços apoiavam-se na cadeira com as mãos entrelaçadas sobre o ventre; os cabelos já grisalhos, estavam úmidos e penteados para trás. Suas pernas magras cruzavam-se solenemente, a perna esquerda sobre a direita, e seus óculos bifocais escorregavam para a ponta do nariz.

Como o silêncio parecia lhe sufocar, tomou a palavra nestes termos:

É... a que ponto nós chegamos! Tornamo-nos cada vez mais individualistas, consumistas e capitalistas. Veja, é quase uma lista de listas! Algum comerciante vende um produto que ele sabe que não presta, mas mesmo assim ele o vende. Está pouco se lixando para os outros, o que importa é seu lucro.

As pessoas, quando tem a oportunidade de receber algum benefício do governo, se candidatam, mesmo sabendo que, na verdade, não tem direito a eles. E o governo sabe disso: ou faz vista grossa, ou não tem condições de fiscalizar.

Falsificamos documentos, atestados médicos, despejamos lixo em qualquer lugar, fazemos ligações clandestinas de energia elétrica, ou seja, a mais perfeita personificação da Lei de Gérson. E ainda reclamam dos políticos, vejam só!

Saem do meio do povo, é bem verdade, são seus representantes. Fazem promessas impossíveis de serem cumpridas, mas suas maneiras eloquentes de declamar seus projetos empolgam as massas. E gostamos de ouvir as coisas desse jeito.

O povo também gosta quando os homens de terno beijam e abraçam suas crianças e suas esposas, e apertam suas mãos como se fossem amigos de infância. Nos sentimos importantes com isso. Chamam pelo nome dos candidatos no diminutivo, numa forma carinhosa de tratamento restrito aos círculos de amizade mais íntimos.

E depois das eleições, desaparecem: não apertam mãos, não beijam, não abraçam, não prometem. Muito menos se justificam. E o povo não sai do lugar, foram treinados para isso. Suas indignações ficam restritas ao discurso, reclamações no âmbito familiar e de amigos. E continuam vivendo, individualistas, consumistas e capitalistas, recebendo benefícios do governo, falsificando documentos e votando errado, e como votam errado!

É claro, deve existir alguém de bem no meio disso tudo. Pessoas honestas, que não admitem nenhum desses comportamentos. Mas eu ainda não conheci ninguém assim. Talvez eu esteja me relacionando com as pessoas erradas.

Neste momento, o homem foi interrompido no meio de seu discurso com batidas na porta.

– Entre, por favor! – disse ele.

– É que já está na hora do comício. – disse o rapaz.

– Oh! Sim, é claro. Diga a todos que já estou descendo. – respondeu ele levantando-se e ajeitando o terno, a fim de ficar mais bem apresentado.

O rapaz saiu e o homem de terno puxou um pente do bolso, passou nos cabelos e no bigode. Olhava para seu reflexo no vidro e este continuava a lhe encarar. Sorriu e disse, quase num sussurro:

– Meus amigos, minhas amigas, minhas queridas crianças! Minha gente!

O reflexo lhe sorriu de volta e tomou a palavra.

– O que me faz diferente de você? O que faz eu diferente dos outros e os outros diferente de mim? A ótica? Sim! A diferença está nos olhos de quem vê. Não há nada de diferente entre mim e um político, entre mim e um cidadão comum: somos a mesma coisa. O mesmo animal racional, onívoro e que busca segurança por todas as formas, honestas ou não. É... não faça essa cara. Todos procuramos satisfação, bem estar, conforto. Essa é a natureza do homem, a criatura evoluída. Tudo depende de como vamos fazer isso.

As pessoas matam por isso? Sim, matam.

Elas roubam por isso? Sim, elas roubam.

E ainda: elas mentem por isso?

É... elas mentem, e como mentem!

Portanto, se você está incomodado com toda essa canalhice, faça alguma coisa. A mudança tem de partir de algum lugar e toda longa jornada exige um primeiro passo. E o melhor ponto de partida para qualquer mudança, em qualquer sociedade, é você mesmo.

Quer fazer algo pela sua cidade, pelo seu país, pelo mundo?

Mude a si mesmo. – concluiu o reflexo.

O homem respondeu com um sorriso amarelo; estava suado e ofegante. Encontrou novamente o pente e tornou a passá-lo nos cabelos e no bigode. Estava incomodado. O reflexo parecia ter lhe ofendido.

Procurou a porta o mais rápido que pode, e saiu atabalhoadamente, olhando vez em quando para trás, na direção da vidraça. O reflexo também se despedia e parecia tão incomodado quanto ele. Conhecer os outros pode ser um caminho para conhecer a si mesmo, mas em alguns casos, será uma aventura extremamente indigesta.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com
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A Ditadura do livro


Mês passado participei da III Mostra de Artes da UFF, com a palestra “Publicar um livro ou ser escritor?”. Foi a segunda vez em que estive em um teatro. A primeira foi na minha colação de grau em Pedagogia, no teatro da UERJ, há cerca de dois meses. Não que eu nunca tenha tido interesse, a questão é que os ingressos para peças de teatro são bem caros, pelo menos para a maioria dos brasileiros, assim como são caras as exposições de arte em museus, as entradas para o cinema, e os livros. É… os livros também são muito caros.

O alto custo desses produtos culturais fundamenta minha bronca com as pesquisas que divulgam que o brasileiro lê pouco, ou que o povo tupiniquim frequenta poucos espaços destinados à cultura. Mas é evidente! Isso tudo está fora da realidade da maioria, repito. Para os mortais, resta a TV, os filmes compartilhados pela internet, o teatro de rua. O valor elevado acaba por selecionar o público e elitizar essas representações da arte, infelizmente. No caso do livro, objeto dessa reflexão, se ele é caro para o leitor, também é para o autor, pelo menos para aqueles que ainda não foram iluminados pelos faróis das grandes editoras, e que dependem das empresas por demanda e da autopublicação. A eles cabe todo o custo de produção do livro, seja a revisão, a diagramação, capa, impressão, distribuição e divulgação. O valor cobrado por uma livraria varia de 30% a 40%. E os direitos autorais, de 5% a 15%.

E daí, Pacheco?

Daí que o camarada que começa a escrever, quer publicar um livro (ou se sente pressionado para isso). Até porque isso envolve aquela visão romântica do “ser escritor”. O livro publicado por uma editora, mesmo que por demanda, carrega o estereótipo de ter sido avaliado por uma equipe, que atesta sua qualidade editorial. Na verdade, o que é avaliado é a sua liquidez no mercado. Vai vender? Ótimo! Vamos publicar!

Quando eu comecei a escrever em 2006 (levando em consideração a pergunta enunciado da palestra, posso considerar que estou comemorando 10 anos de carreira!) eu também pensava assim. Assisti a uma entrevista em que a autora provocava o espectador (ela lançava um livro) “Você já pensou em escrever um livro?”. E eu, que já pensava em escrever, fui subitamente lançado na prática literária, não fazendo experiências, com um texto aqui, e outro acolá, mas preparando logo um romance a enviar para as editoras. Como se para ser reconhecido como escritor, eu precisasse de um livro com meu nome. Na mesma época, conheci muita gente que publicava na internet, em sites especializados e também passei a publicar por lá. Mas para mim – e para os outros – eu tinha que ter um livro, pelo menos um, e assim tirar minha onda de escritor.

Não é bem assim, cara pálida.

E Herbert Vianna, ou Renato Russo? Não são poetas? Tem algum livro de poesias publicado? Vejam o caso recente do Bob Dylan: Nobel de Literatura!

E Maurício de Sousa, criador de personagens que atravessaram décadas? É desenhista ou escritor?

Para mim ele é escritor, assim como tantos outros desenhistas de quadrinhos, roteiristas de filmes, peças de teatro, músicos, todos eles. E não há necessidade nenhuma de ter um livro para isso.

Há muito tempo e cada vez mais, existem variadas plataformas de publicação (tornar público) de um texto literário, como o cinema, os quadrinhos, e a internet. Diversos jornais possuem além de seu suporte físico, o sítio digital, com os mesmos colunistas e cronistas, que mesmo sem ter livros, não podem deixar de ser considerados escritores.

Contudo, caro leitor, o problema não é o livro. Quem escreve tem todo o direito de desejá-lo, ele só não pode se sentir pressionado a tê-lo. O livro é o fim, e não o meio. Escrever é ter algo a dizer, e publicar é tornar público, de qualquer forma. Seja nos blogs ou subindo em um caixote e recitando a poesia em plena rua. Não importa. Importa mesmo é dizer, simples assim.

Devemos pensar no livro como um casamento. Publicar um livro é casar, mas antes disso, e tão importante quanto, é namorar. Antes de pensar em seu livro, caro colega recém-escritor, permita-se escrever sem compromisso, a namorar com a Literatura, recitar poesias nas ruas e postar em blogs. Namore bastante – e que seja tão bom para a Literatura quanto for para você.

George dos Santos Pacheco
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