Ensaio sobre o tempo


A vida é breve. A vida é uma prece murmurada, na calada da noite, interrompida subitamente pelo sono, à nossa revelia; é um dia de sol, de céu azul e límpido, de brisa fresca, de pássaros gorjeando em rasantes. Sem que percebamos, vem logo a noite e o frio, a escuridão. Talvez a vida seja um soneto: belo, curto, emocionante. E não há nada que possamos fazer a fim de deter o sono, a noite… o fim do poema. Só nos resta orar, recitar, viver. A vida é breve, é o que sei. É apenas o que sei, é tudo o que eu sei.

E o que é o tempo?

Na mitologia grega, Cronos é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Rei dos titãs, e grande deus do tempo, é o regente dos destinos e que a tudo devora.

Diz-se que o tempo é invenção do homem – e vá lá, talvez o seja – mas sendo invenção do homem, não deveríamos ter o poder de controlá-lo? Pois os gregos já alertavam sobre Cronos, o inexpugnável e cruel. O tempo é cruel, mas somente em determinado período da vida é que vamos perceber isso. Quando garotos, temos todo o tempo mundo, mas à medida que a maturidade vem, os compromissos, o trabalho, as responsabilidades, tudo isso faz parecer o tempo cada vez mais escasso, ele escorre pelas mãos (mesmo sem se sentir).

Lembro-me de quando criança caminhar com meu pai nos fins de semana pelo bairro. E a gente seguia cumprimentando seus amigos e eu olhava para ele, e ele me parecia tão grande, tão firme, tão cheio de vigor, que eu me sentia seguro. Eu não precisava temer nada! E antes de sair, despedia-me de minha mãe, tão ativa, que me preparava e me dava uma série de recomendações e ela sempre me pareceu tão convicta que eu não precisava me preocupar, tudo daria certo. Eu ainda recebo recomendações de minha mãe e meu pai ainda me conduz – e será sempre assim – entretanto, já observo os cabelos em tons de prata, a pele perdendo o viço, os olhos... e a fragilidade. O tempo passa (e passa muito rápido).

A sensação de impotência diante das coisas e do tempo nos proporciona certa angústia, embora não tenha sido sempre assim. Eu nunca me importei com a fragilidade e brevidade da vida (talvez não dessa forma), contudo, hoje me reconheço em meus pais na relação com meus filhos. Somos o referencial deles: grandes, firmes, cheios de vigor, convictos... Mas um dia eles também observarão nossos cabelos brancos – e eu torço para que seja realmente assim – e talvez eles sintam no peito uma pontinha de medo de nos perder, assim como eu, minha esposa, e você, caro leitor.

Como não há o que fazer, o que nos cabe é valorizar cada momento, cada minuto de nossas horas e as pessoas que fazem parte delas. Eu lhes asseguro que cada momento é único, sem reprise ou replay, e eu poderia muito bem colocá-los enfileirados numa estante com uma plaquinha dourada em baixo para, orgulhoso, mostrar a uma visita. Todos eles, bons ou ruins. A vida é breve e não tem reprise ou replay; o tempo passa (e passa cada vez rápido) e seria muito menos doloroso se vivêssemos conscientes disso.

Os homens escrevem livros, constroem grandes muros, erigem obeliscos e colossos para, numa tentativa desesperada, registrar sua passagem pelo mundo, pela vida e pelo tempo. Mas quando tudo acabar, quando todos se forem, restará apenas o tempo, este sim, eterno. Inexpugnável e cruel, solitário, gordo e tirano, o único sobrevivente de um universo inteiro.

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

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