Isso é pra você aprender!


Confesso que não sou autor dos episódios a seguir. A verdade, contudo, é que acredito que muitas histórias que circulam oralmente na cultura popular precisam – e merecem – ser registradas para que não se percam e que nos sirvam de lição. Afinal, alguém discorda de que toda história tem algo para contar e nós, muito que aprender?

Diz que dois garotos estavam negociando um burro com o dono de um sítio, com a intenção de rifá-lo; cerca de duzentos bilhetes já estavam todos vendidos (a dois reais cada) e o sorteio seria no dia seguinte. Dava para pagar o produto e ainda sobrava uma graninha boa. O animal estava muito bem cuidado: os pelos acinzentados, brilhantes, eram escovados todos os dias e o couro não tinha um machucado. Os dentes de Rambo – nome pelo qual o bicho atendia – também eram impecáveis e, assim, ninguém poderia por defeito nele.

Acontece que, apesar de todo o cuidado que Seu Zé Maria tinha, infelizmente, o bicho amanheceu morto. Cabisbaixo e tristonho, o dono teve que explicar aos garotos que não poderia vendê-lo.

 – Meninos, infelizmente, não posso vender mais o burro para vocês. O Rambo morreu essa manhã.

– Como assim morreu, Seu Zé? – perguntaram quase em uníssono.

– Não sei dizer, crianças. Apenas amanheceu morto. – respondeu, ao que os meninos pediram licença e se afastaram um pouco. Trocaram meia dúzia de palavras e retornaram.

– Então, a gente vai querer ele assim mesmo.

– Como assim mesmo? Não ouviram? O Rambo morreu!

– A gente o compra assim mesmo! – insistiram. Seu Zé não entendeu nada, mas decidiu entregar o bicho.

– Meninos, eu não estou entendendo nada, mas vocês podem ficar com ele. Na verdade, vocês vão me fazer um favor levando ele embora. E é claro, não vou cobra-lhes nada.

Os garotos agradeceram e foram embora. Dias depois, o velho encontrou-os no centro da vila, felizes e sorridentes e a curiosidade apertou. Aproximou-se e sem rodeios, perguntou pelo finado bicho de estimação.

– Ora, a gente o rifou. – responderam sorrindo.

– Como o rifaram, meus filhos? O bicho não estava morto? Ninguém reclamou? – perguntou estupefato.

– Apenas o ganhador!

– E o que vocês fizeram?

– Devolvemos o dinheiro para ele!

A outra história conta que um taxista, já no final do expediente, passou em frente a uma famosa clínica psiquiátrica da cidade. No ponto de ônibus, três maluquinhos estavam esperando a condução, e o motorista viu ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Parou o carro e esticando o corpo pelo banco do carona, chamou os rapazes.

– Ei, amigos! Vocês estão indo para onde?

– Eu estou indo para a Ponte da Saudade! – disse um.

– Eu vou para o Centro! – disse o outro.

– Eu vou para Olaria! – disse o último.

– Entrem aí, faço um preço bem camarada. – afirmou sorridente e os maluquinhos embarcaram.

Depois de todos acomodados, o taxista não engatou a marcha e acelerou fortemente o carro, no mesmo lugar, por um breve período e gritou “Ponte de Saudade”! O maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Em seguida, acelerou o carro com vigor, virou o volante para cá e para lá e gritou “Centro”! O outro maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Por último, acelerou novamente o veículo, desta vez com mais empenho ainda, e anunciou que haviam chegado ao último bairro. O rapaz pagou e desceu do carro sem dizer nada, fez a volta e parou bem ao lado do motorista, que tinha a janela aberta e deu um tremendo tapa em seu rosto. O taxista fechou os olhos cheios de lágrimas e pensou: “Caramba, fui descoberto...”. E pra não deixar barato, o último maluquinho deu-lhe um pito:

– Isso é pra você aprender a não andar correndo tanto assim!

***

Moral das histórias: Há sempre alguém querendo se dar bem prejudicando os outros; em nossa sociedade, só é respondido quem reclama (então reclamemos!); e por último e não menos importante, quem é esperto demais e vive enganando os outros, quando menos esperar vai ser punido. E pode ser que nem assim aprenda!

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

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